quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Breves comentários sobre os contos do Mia Couto selecionados para leitura

As três irmãs

O conto trata da submissão feminina e de vidas sem maiores emoções. As três irmãs se definem por um afazer tipicamente feminino: a poesia, a culinária e o bordado. O conto é extremamente poético e prenhe de passagens bastante líricas. Do ponto de vista lingüístico, convém destacar o uso pronominal proclítico e o belo neologismo (cristalinda). O jogo de metonímias da última parte também merece destaque. O desfecho do conto põe em cena o inusitado como manutenção do equilíbrio (homens se beijam).

O homem cadente

O conto discute os limites entre o real e o fantástico. O elemento onírico delineia o fantástico na medida em que o personagem-narrador faz da realidade o sonho. Há ainda uma discussão acerca da histeria coletiva. Mais uma vez o uso pronominal chama atenção. É a moça o elo entre o fantástico e o real, já que ela habita dois mundos.

O cesto

Texto estruturalmente simples, mas de uma força extraordinária, traz uma mulher no papel de protagonista cujo marido se encontra em leito de morte. A figura feminina se mostra (como no 1º conto) em estado de submissão mesmo diante do desvanecimento do marido. O duelo aqui é mais uma vez travado pela vida e pela morte: a luz de um só brilha quando a do outro se apaga (“A sua vida me apagou. A sua morte me fará nascer”). Antes tal constatação, a mulher passa a desejar a morte do marido, sinônimo de sua liberdade. A morte chega para o homem, no entanto, a vida que, esperava-se, jorraria dos poros da mulher, permanece acanhada. O conto não traz inovações de estilo.

Inundação

O conto aborda o tema da ausência e das consequências que daí resultam. Embora o narrador seja um menino, mais uma vez a figura feminina ocupa o centro da narrativa. O texto fala assim da lembrança e de seu poder de dar corpo ao que está ausente. A ausência, nesse sentido, não é um vazio total, mas um espaço em branco cujos contornos são delineados pelos traços da lembrança, inundação seja de rios ou céus.

Saia almarrotada

Nesse conto a personagem é uma mulher (a única) numa família de outros tantos homens. Além de mulher, é a caçula, o que simboliza ainda mais a sua fragilidade. A mãe falece durante o seu parto: “Minha mãe nunca soletrou meu nome. Ela se calou no primeiro choro, tragada pelo silencia”. A personagem parece se sentir deslocada da família e da sociedade em si. Há um tom de impessoalidade ou despersonalização já que, com exceção de um tio (Jonjão), os pares da personagem não são dados a conhecer pelo leitor senão por termos genéricos: filharada, outras moças, mulheres etc. Portanto, é mais uma vez a mulher destituída de sua feminilidade que ocupa o centro da narrativa. O título sintetiza essa perda da feminilidade ou a sua descaracterização: o NBeologismo garante a simbiose do objeto (saia) com a figura (almarrotada) feminina.

O adiado avô

Apesar do deslocamento gerado no que diz respeito ao protagonismo (nesse conto é um homem), ainda é da condição de sofrimento da mulher que o texto trata também. Todos os personagens nomeados assim o são por neologismo, dois morfológicos (Zedmundo e Amadalena) e um semântico (Glória). É interessante notar como estes neologismos falam muito da personalidade dos personagens que nomeiam; há uma sintonia no que tange os nomes e o desenrolar da narrativa: “O velho Zedmundo nunca tivera nem rumo certo nem destino duradouro”; “(...) vendo-o assim, babado, e minguado, minha mãe entendia que o velho, seu velho homem, queria, afinal, ser sua única atenção”. O desfecho do conto, ao contrário dos anteriores, traz o clássico final feliz.

Na tal noite

O texto traz à baila a história de uma segunda mulher que só vê o pai dos seus filhos uma vez ao ano: na tal noite / a noite de natal. Há um jogo entre o título e a situação que encerra: é em noite de natal que o pai natal aparece; note-se que pai natal se opõe a pai Noel, embora haja semelhanças entre eles, nas atitudes (chega de carro a dar presentes) e no aspecto físico (são ambos corpulentos). O traço peculiar da personagem feminina está na sua aceitação – um tanto frustrada – da condição de segunda mulher. Ela louva o seu marido, Sidónio, pelo cumprimento mínimo do papel de pai, mas o papel de homem quem faz é o vizinho. Sendo assim, a personagem feminina difere das outras em termos de absoluta submissão.

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